Dois em um
I
Dualidade
E agarro-te as crinas de amor equídeo.
E solto-te o dorso de vontade curva.
E abraço-te o galope de rédea turva.
E sorrio a tua boca de arfar canídeo.
E entoas-me os olhos em embalo cantante.
E diluis-me o cérebro em carícia melódica.
E afagas-me a dor em torrente espasmódica.
E sorris o meu ouvido em ardor falante.
E persigo-te a coxa pela viela acima.
E encurralo-te a língua no fundo do beco.
E esgano-te os seios no crime que disseco.
E espio o teu sufoco pelo ventre que me mima.
E arrependes-me o amargo em rios de beijos.
E invejas-me a doçura em aperto embebido.
E estonteias-me o sexo em prazer derretido.
E ecoas o meu clímax em catarata de desejos.
II
Unicidade
Velejamos juntos nos altos mares
dos nossos líquidos corporais,
despertando graças aos seus sais,
desmaiados pelo ofegante dos ares.
Dormimos por ignorar tudo o mais
que não os sonhos puros. Os azares,
as desavenças vão para outros lares;
ficamos unidos por cordões umbilicais.
Acordamos por deixarmos para trás,
sob os pretextos dos desejos carnais,
os insaciáveis meandros sociais
que nos consomem. Em paixão assaz
os desprezamos. A sós, somos totais.
Com pudor, renegamos esse capataz;
fodemos contra a inadequação incapaz.
Fundimo-nos num só. Dois é demais.
III
Omni-falsidade
De repente, qual óvulo abortado,
cessou a união,
e de um pulo foi para seu lado
cada um, em aversão.
É que lemos nas entrelinhas
da Natureza consumada
que estava cheia de espinhas.
A sociedade odiada
entranhou-se em nós, e ao receber
a sua mensagem subliminar,
digerimos que não se pode romper
um tão implantado invólucro de azar.
Ao tentar transcender o comunicativo,
o impulso que nos movia
já não era o banal ímpeto lascivo;
era o de ser quem se deveria,
segundo ela; obedecermos aos seus caprichos, sua métrica.